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02/12/2014

É paraibano o profissional contratado pela família de Pablo Picasso para restaurar quadros do pintor espanhol


A família do renomado pintor Pablo Picasso contratou o restaurador de obras de arte Flávio Capitulino, natural de Sousa-PB, para restaurar quadros inéditos do pintor espanhol, que nunca foram apresentados ao público. A informação está publicada na edição desta terça-feira (02) do Jornal da Paraíba, na coluna social de Celino Neto.

 

Segundo a informação publicada por Celino, as obras agora estão em exposição na Galerie De La Bouquinerie, em Paris, onde ficarão até o dia 15 de dezembro. Flávio Capitulino, 46 anos, deixou a Paraíba e foi morar em Paris no ano de 1982, onde fez faxina, cuidou de bebês e dançou lambada com boneca de pano na porta do Beaubourg, o principal centro cultural francês. Levava US$ 50 e não sabia pedir um copo d'água em francês.

 

Hoje, é um dos principais restauradores de obras de arte da França e tem na sua lista de clientes o próprio Beaubourg e o Museu D'Orsay. Já restaurou obras de Gauguin, Renoir e Modigliani. Na cidade de Sousa, restaurou uma capela de 1730, a igreja Nossa Senhora do Rosário. No Brasil, também já deu cursos em São Paulo, ensinando algumas técnicas que criou.


 

Filho de agricultores, ele nasceu na roça e foi criado em Campina Grande, onde se dividia entre o trabalho de padeiro e bicos como decorador. Seu sonho era ser pintor em Paris. Mas, só conseguiu juntar dinheiro para comprar a passagem de ida para a França; um tio teve de financiar a de volta, obrigatória à época para conseguir o visto.

 

“Eu trabalhava tanto para juntar dinheiro que dormia duas horas por noite”, lembra. Sua chegada a Paris não foi melhor. Foi com a promessa de que poderia ficar o quanto quisesse na casa de um casal francês que conhecera na Paraíba. Mas, uma semana depois, foi convidado a se retirar.

 

Sem falar francês, diz que foi para as ruas repetindo uma única pergunta: “Você fala português?”. Uma portuguesa foi a sua salvação. Indicou-lhe a Maison du Brasil, onde vivem os brasileiros que estudam em Paris. Ganhou abrigo e a sugestão de que os únicos empregos que conseguiria seriam os de faxineiro e de babá.


 

Cuidou de crianças até se deparar com uma mesa de laca chinesa, toda descascada, na casa de seus patrões. “Insisti tanto que me deixaram restaurar a mesa”. Seus patrões ficaram tão encantados com o resultado, segundo Capitulino, que convidaram uma restauradora do Louvre para ver a mesa. Não tinha vaga no Louvre, mas a restauradora indicou Capitulino a um ateliê privado.

 

“Foi outra novela. Eles queriam saber qual era a minha experiência e eu tinha só uma mesa no currículo. Pedi uma semana para mostrar o que sabia, tudo por intuição, e três meses depois eu era chefe do ateliê”, diz Capitulino.

 

Hoje, ele tem seu próprio ateliê, onde restaurou a tela “Mulher com Rosa”, de Gauguin, avaliada em US$ 40 milhões. Dos mais de dez Renoir que recuperou, o mais valioso está no Museu D'Orsay (“A Dançarina”). “Vista de Ponte Neuf”, um Cézanne que pertence a uma galeria parisiense, também foi recuperada por Capitulino.


 

Capitulino diz ter aprendido e criado uma série de técnicas de restauro por intuição – só depois de estar trabalhando é que foi estudar a história das técnicas. Da padaria em que trabalhou a partir dos 6 anos, aprendeu que limão não deixa o caramelo cristalizar. Foi exatamente com caramelo que ele criou uma técnica para colar pintura sobre vidro quando quebram.

 

“Uso açúcar, fungicida para matar os bichos e gotas de limão. Qualquer outra cola afetaria a cor da pintura no vidro. Com o caramelo isso não acontece”, diz. O poder adesivo do caramelo ele descobriu no sertão. “Antigamente, quando não havia laquê, as pessoas usavam água com açúcar para fazer penteados no Nordeste. Lembrei disso quando me deram um trabalho em vidro para colar”.

 

Para limpar óleo sobre tela, ele descobriu uma técnica nova, que não usa solvente, produto que sempre afeta a imagem pintada. Ele emprega breu moído para tirar sujeiras que se acumulam no verniz que era usado para proteger a pintura. Casca de ovo e cera de abelha também viraram material de restauro nas mãos de Capitulino.


 

“Não aceito a ideia de que há uma receita para restaurar um quadro. Considero cada quadro como se fosse um paciente. E para cada caso há um medicamento. Sou uma espécie de médico da arte”, define. Médico muito bem pago, aliás. Capitulino não fala quanto ganha, mas dá uma pista: “Eu poderia passar quantos fins-de-semana quisesse no Brasil, viajando de primeira classe”. Coisa de quem tem US$ 6 mil, o preço da passagem, para desperdiçar quando quiser.

 

Do Blog Carlos Magno, com JP e Folha / Fotos: Celino Neto