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03/08/2020

Conheça Tercio Arnaud Tomaz, o assessor banido pelo Facebook, natural de Campina Grande-PB, que ganhou prestígio junto a Bolsonaro


Não é novidade para ninguém que as redes sociais foram fundamentais para que Jair Bolsonaro, um folclórico deputado de baixo clero, fosse eleito presidente da República com quase 58 milhões de votos. Mas a construção do perfil que ganhou o imaginário dos brasileiros se deve a um jovem de pouco mais de 30 anos: Tercio Arnaud Tomaz. Hoje assessor no Palácio do Planalto, Tomaz foi responsável por transformar Bolsonaro num político “humilde” e que “fala o que pensa” nas redes sociais. Ele ganhou tanta confiança da família presidencial que virou um dos principais integrantes do chamado “gabinete do ódio”, uma estrutura no terceiro andar do Planalto que gerencia a estratégia agressiva dos bolsonaristas na internet.

 

Tomaz está entre os alvos de uma ação do Facebook que derrubou na quarta-feira 9 um conjunto de perfis falsos usados para atacar adversários e disseminar mentiras. A importância de Tomaz para a organização dessa rede foi revelada por VEJA em maio do ano passado, quando o então ministro general Santos Cruz se tornou alvo de uma campanha difamatória na internet. No “gabinete do ódio”, Tomaz atua ao lado de pelo menos outros dois assessores: José Matheus Salles Gomes e Mateus Matos Diniz. Há, no entanto, servidores públicos espalhados por Brasília que também participam desse grupo, como é o caso de Guilherme Julian e José Henrique Cardoso Rocha, lotados no gabinete do deputado Hélio Negão (PSL-RJ).



 

Toda essa estrutura é supervisionada informalmente pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), responsável pela estratégia digital do pai desde 2013. Naquela época, Carlos monitorava as redes e procurava manter contato na internet com pessoas que administravam perfis de apoio ao então deputado no Facebook. José Matheus Salles Gomes foi o principal “ativista digital” nesse período. Natural de Fortaleza, e proveniente de uma família pobre, ele era o responsável pelo perfil Bolsonaro Zuero. É atribuída a Matheus a criação do rótulo de “mito” que colou em Bolsonaro entre os seus eleitores. Além de difamar opositores, Matheus rejuvenesceu um presidenciável de mais de 60 anos de idade e que não havia desempenhado um papel relevante durante os 28 anos em que esteve no Congresso. Eram frequentes, por exemplo, os vídeos publicados pela página em que um óculos escuro pousava no rosto de Bolsonaro quando ele dizia algum de seus bordões ou criticava um adversário. A criatividade com a produção de memes rendeu a Matheus até um convite para ser roteirista do programa de televisão do humorista Danilo Gentilli, mas ele preferiu a carreira ao lado de Carlos Bolsonaro.

 

A exemplo do colega de militância, Tomaz também nasceu em uma família pobre de Campina Grande, na Paraíba. Ele administrava no Facebook a página Bolsonaro Opressor 2.0, uma conta de ataque a opositores que ironizava o discurso agressivo contra minorias que fez Bolsonaro ganhar fama nacional. Tomaz consolidou com este perfil a imagem de que Bolsonaro era um político humilde, praticamente uma versão de direita do ex-presidente uruguaio José Mujica. O militante aproveitava fotos divulgadas por páginas de menor alcance, mas que eram coordenadas por pessoas próximas à família, para fazer correr na internet cenas em que Bolsonaro aparecia em situações corriqueiras de sua vida. Um dos perfis que serviam como fonte para Tomaz era o “Carteiro Reaça”, que à época era administrado por Gil Diniz (PSL-SP), então assessor de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Diniz, que se elegeu deputado estadual em 2018, intermediou o primeiro contato telefônico entre Tomaz e Bolsonaro, ocasião em que o paraibano chorou ao receber a chamada do “capitão”. Bolsonaro gostou tanto de Tomaz que decidiu contratá-lo para o seu gabinete em 2017. Como o militante não tinha onde morar, o presidente cedeu um apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para ele se instalar enquanto abastecia páginas de apoio à sua candidatura presidencial.

 

Tomaz logo ganhou de Bolsonaro o apelido de “rapaz das redes”. A importância que ele passou a exercer internamente causou ciúmes em Carlos, situação que só foi contornada após Bolsonaro conversar com o filho e transferir Tomaz para o gabinete do vereador. Bolsonaro havia sido alertado de que já estava sob escrutínio da imprensa e que poderia haver um desgaste desnecessário caso fosse descoberto que um de seus funcionários era pago com dinheiro público para abastecer perfis com conteúdo inapropriado. Alocar Tercio no quadro de assessores de Carlos também serviu para diminuir o incômodo do filho, que passou a coordenar mais de perto as ações dos militantes na internet.

 

Tomaz acompanhou Bolsonaro em situações cruciais para sua eleição. Ele esteve no primeiro encontro que o presidenciável teve com o hoje ministro da Economia, Paulo Guedes, em um hotel na Barra da Tijuca. Quando Guedes questionou um dos presentes sobre quem era aquele garoto quieto no canto da sala, ouviu a resposta clássica: “é o rapaz das redes”. Ao término do segundo turno, durante o período de transição, Tomaz passou a atuar como assessor de imprensa informal do presidente eleito. Era ele o responsável pelas fotos em que Bolsonaro cortava o cabelo, sacava dinheiro no banco ou comia um pão francês com leite condensado numa mesa sem toalha. Durante o período de transição, Tomaz e Matheus estavam presentes em boa parte das reuniões que Bolsonaro tinha com políticos que viriam a se juntar ao seu governo. Hoje, na administração federal, a dupla mantém o perfil discreto, mas pode ser vista acompanhando o presidente em viagens internacionais ou em reuniões com ministros de Estado.

 

Segundo o Digital Forensic Research Lab (DRFLab), instituto que conduziu a investigação para o Facebook, Tomaz operou durante todo esse período uma rede de contas que promovia conteúdo “enganoso” e que usava “meias-verdades para chegar a conclusões falsas”. Ativo também no Instagram, Tomaz é apontado como o administrador da página @bolsonaronewsss, que, de acordo com o relatório entregue ao Facebook, se dedicava à publicação de memes e conteúdo pró-Bolsonaro enquanto atacava rivais políticos. O Palácio do Planalto não se pronunciou sobre o caso – Veja.

 

Carlos Magno

 

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